Afeganistão: entenda os desdobramentos da tomada de poder do grupo Taleban

Grupo autoritário toma o poder do Afeganistão após retirada dos militares americanos e derrubada do presidente Ashraf Ghani

 

Gabriel Neves Matos | Blog Rede Juris

GOIÂNIA Após a derrubada do presidente do Afeganistão Ashraf Ghani, o grupo fundamentalista islâmico Taleban já deu início a montagem do novo governo do Afeganistão. A ação incorre 20 anos após o grupo ter sido expulso do poder pelos Estados Unidos. Num acordo adotado ainda no governo Donald Trump —juntamente com o Taleban—, o atual presidente dos EUA Joe Biden foi quem deliberou, por fim, a retirada das tropas militares americanas do território afegão que, a partir do último dia 6, começou a ruir.

Desde então, nos jornais e nas redes sociais não se fala em outro assunto a não ser a crise no Afeganistão. Cabul, capital e cidade mais populosa do país, se tornou não menos do que o epicentro da crise. Ao contrário do que imaginavam as forças americanas, a queda do governo civil e a tomada dos centros do poder em Cabul foi rápida. Funcionários do governo Joe Biden admitiram erro de cálculo na retirada de seus militares do país, conforme noticiou a CNN Internacional.

As cenas dramáticas da população local se aglomerando em frente aos aviões prestes a decolar em Cabul circularam em todo o planeta. Em discurso oficial na última segunda-feira (16), diretamente da Casa Branca em Washington, D.C., o presidente Joe Biden lavou as mãos sobre a responsabilidade dos EUA pela crise. “Os militares afegãos desistiram —algumas vezes sem tentar lutar. Isso comprovou que não devemos estar lá. Tropas americanas não devem lutar e morrer numa guerra que os afegãos não querem lutar”, afirmou Biden.

Ainda no mesmo discurso, Biden fez questão de reiterar todos os esforços do governo americano em conter uma crise que já era prevista pelos estrategistas da Defesa. Dentre as ações, Biden listou o treinamento de cerca de 300 mil militares além dos gastos que, somados, resultavam em US$ 1 trilhão aos cofres dos EUA. Biden exaltou os poderios americanos que incluem 23 caças Super Tucano, 1000 veículos de transporte blindados, 110 helicópteros —entre outros.

O temor que o regime Taleban impõe à população local é o que explica, portanto, as deploráveis cenas transmitidas em todas as redes no início desta semana em que pessoas tentam fugir do país afegão a qualquer custo. A retomada autoritária do poder significa menos direitos, um fundamentalismo religioso levado ao extremo, proibições, punições e cerceamento dos direitos das mulheres.

Editoriais de capa dos principais jornais americanos e brasileiros, trouxeram nesta semana o questionamento das ações inconsequentes dos EUA sobre o Afeganistão. Analistas do mundo jurídico brasileiro veem a ação como um erro —tal como os próprios funcionários da Defesa americana. “Era uma tendência natural isso ocorrer em algum momento”, afirma o procurador federal da Advocacia-Geral da União (AGU) e professor de Direito Constitucional Bruno Cézar da Luz Pontes, 47, em entrevista ao blog da Rede Juris.

Pontes analisa a ação dos EUA em retirar seus militares do território afegão como uma ação que se enquadra em um movimento histórico —desde os ataques do 11 de setembro, em 2001. Para ele as falhas do governo americano devem, também, a uma gestão na área militar e de inteligência. “Foi algo absurdo as verbas que os EUA destinaram ao Afeganistão nos últimos 20 anos”, retoma Pontes fazendo menção aos gastos bilionários com treinamento dos afegãos —patrocinado pelos EUA.

 Em Cabul, capital do Afeganistão, grupo Taleban toma o poder | Foto: Getty Imagens

Em Cabul, capital do Afeganistão, grupo Taleban toma o poder | Foto: Getty Imagens

Para André Luiz Cançado Motta, 26, assessor parlamentar na Assembleia Legislativa do Estado de Goiás (Alego) e mestrando em Política Internacional pela Universidade Federal de Goiás (UFG), o recado que o discurso de Biden sinaliza para o cenário internacional é de que agora os EUA saíram do jogo. “É como se eles estivessem dizendo que, a partir de agora, eles estão saindo e outros atores terão que ‘dar as caras’ e auxiliar em funções específicas na crise do Afeganistão”, explica Motta.

Motta aponta que nestes últimos anos os EUA nunca tiveram um plano real e específico para o Afeganistão, embora as altas quantias gastas ao longo do anos. O plano, relembra, era o de criar uma base militar para treinar, equipar e depois ir embora. “O Taleban esperou exatamente a assinatura do Tratado de Paz do [ex-presidente] Donald Trump em 2020 para então redefinir os seus próximos passos. O que ninguém esperava era esse avanço rápido —tal como se deu agora em 2021.”

Apontado pelo senso comum como uma variante capaz de ganhar força, a influência da China no mercado afegão é questionada se se pode deter ou moderar a escalada do grupo autoritário. Para Motta, não. “Os interesses da China no Afeganistão são outros. O Taleban não tem interesse em se moderar. Nesse caso específico, a China mais deve ao Afeganistão do que pode tentar moderá-la. O interesse da China é um equilíbrio fronteiriço com o Afeganistão, numa província muçulmana com milhões de muçulmanos. Porém, não é só isso. Do ponto de vista econômico, a China deseja também estreitar os laços com o Afeganistão para viabilizar seu projeto de expandir a rota comercial para a Europa —aqui, a rota da seda”, explica Motta.

Do ponto de vista constitucional, o professor Pontes vê que as relações com a China são apenas negócios e que pode ocorrer de eles pedirem concessões, num futuro próximo. Pontes levanta a questão dos direitos humanos como sendo um ponto delicado neste momento. “É um problema quando olhamos para o contexto histórico do Afeganistão e percebemos que de 1996 a 2001 [outra fase do governo Taleban] o direito das mulheres foi cortado, como a proibição do trabalho”, afirma.

Olhar para a questão da China talvez seja, nesse momento, uma opção não tão crucial, quando, na verdade, a questão dos direitos humanos é que ganha centralidade no debate. A partir de agora, com o governo autoritário, as mulheres afegãs devem retomar o uso da burca —veste que cobre todo o corpo e que possui uma pequena tela, à altura dos olhos. “Retomar” porque na década de 1990 as mesmas condições foram impostas pelo Taleban.

“Não acredito que o mundo tenha abandonado o Afeganistão. Nossos amigos vão ser mortos. Eles vão nos matar. Nossas mulheres não terão mais direitos”, lamentou, com voz embargada, uma passageira afegã que havia acabado de desembarcar na Índia vinda de seu país natal, em entrevista à BBC News Internacional.

Nas áreas em que passou a controlar, o Taleban já definiu suas regras. Como por exemplo no distrito onde vive a parteira Nooria Haya (nome fictício para preservação da identidade real) de 29 anos. Em entrevista à BBC News Internacional ela disse que seus dias de trabalho incluíam reuniões e discussões com médicos do sexo masculino. No entanto, ela descobriu que essas interações entre pessoas de sexos opostos estavam proibidas. Segundo Haya, foi a primeira ordem que o Taleban deu a eles quando o grupo assumiu o controle da região. “Há muitas restrições agora. Quando saio de casa, tenho que usar a burca, conforme ordenado pelo Taleban, e um homem tem que me acompanhar”, relata.

 

 

3 respostas
  1. Adalberto neves da silva
    Adalberto neves da silva says:

    Bem pontual e esclarecedor a reportagem iremos pelo Afeganistão

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